10 anos de Mac OS X, parte 2: estratégia em ação

Na primeira parte desta série vimos o ambiente e a cadeia de decisões que conduziram à opção por renovar o Mac OS a partir do NeXTSTEP/OPENSTEP. A seguir veremos como foi o período de incubação: mais de 2 anos nos quais a Apple continuou com o Mac OS 9 no mercado, enquanto nos bastidores criava seu sucessor Mac OS X - cujos detalhes gerais foram mantido em segredo do público, e especialmente da Microsoft.

Os aplicativos fazem o sucesso de uma plataforma desktop

A Apple sabia que os usuários desktop são atraídos e mantidos não só pelas especificações físicas das máquinas e pelas características de seus sistemas operacionais, mas principalmente pela oferta de aplicativos para rodar neles.

É por isso que a empresa (e tantas outras, pois este é um conhecimento compartilhado por todas) investe em oferecer aos desenvolvedores externos condições técnicas atrativas ao desenvolvimento de softwares de boa qualidade, e neste sentido funcionou bem a escolha de uma base UNIX (o XNU, nascido do Darwin) por meio do NeXTSTEP foi uma tacada de mestre, atraindo desenvolvedores com familiaridade com os detalhes do sistema, e de ferramentas de desenvolvimento que estavam à frente da concorrência. E, como se sabe, funcionou: os desenvolvedores logo vieram e não param de chegar.

Nasce uma interface

Mas antes de o NeXTSTEP (via OPENSTEP) se transmutar em Mac OS X, havia mais uma metamorfose no caminho: a interface com o usuário.

Lembre-se que estávamos em meados da década de 1990, em que interfaces modernas da época (como as do Windows 95) ainda se baseavam em ícones de baixa resolução, cantos em ângulo reto e chanfros para todos os lados.

E a princípio, ao contrário do que acabou sendo realizado, a decisão interna da Apple foi simplesmente dedicar um desenvolvedor solitário para fazer a interface do sistema novo ficar parecida com a do Mac OS clássico (que você confere na imagem acima).

Este desenvolvedor chegou a fazer isso por algum tempo, mas felizmente havia outras cabeças mais progressistas na empresa e, quando as ideias de renovação chegaram a Steve Jobs, ele reuniu a equipe responsável pela decisão de continuísmo e deixou bem claro que era para esquecerem a interface antiga e repensarem tudo - o que foi feito, na forma de protótipos (que preservaram várias boas ideias do Mac OS clássico, no final das contas), em 3 semanas.

Claro que as 3 semanas de protótipo foram só para obter o sinal verde. A partir daí, a interface foi desenvolvida durante um ano e meio, com aprovação pessoal por Steve Jobs de cada elemento, por pequeno que fosse: barras de rolagem, menus, botões e assim por diante.

 


O visual do primeiro beta público do Mac OS X, em 2000 

Usando suas atribuições de CEO interino que foi chamado do exílio para salvar a companhia, Jobs cortava e cortava, buscando reduzir ao mínimo a complexidade da interface (o importante não é a janela, mas seu conteúdo!) e tornar mais simples a manipulação e configuração do sistema, incluindo elementos como a Dock, o painel unificado de preferências, e os botões de controle das janelas (fechar, minimizar, etc.) adotando as cores da sinalização de trânsito.

Curiosamente o pequeno episódio (felizmente interrompido a tempo) de tendência ao continuísmo veio em um período em que o design na Apple já estava em franca renovação: aqueles curiosos iMacs com cor de gelatina e formato inspirado em gotas já haviam sido lançados (rodando o Mac OS clássico, claro) há algum tempo. E acabaram servindo de inspiração para a nova interface, que hoje conhecemos como Aqua...

Todo mundo gosta de novidade mas ninguém aprecia mudanças

A Apple sabia que o Mac OS X seria uma novidade para todo mundo: mesmo os desenvolvedores e usuários experts no mundo Mac clássico precisariam reaprender muita coisa, e abandonar várias das práticas a que estavam acostumados - para não falar na necessidade de reescrever aplicativos e utilitários.

A estratégia da Apple para vencer esta natural resistência foi top-down, com uma parceria estratégica que se à epoca parecia surpreendente, hoje chega a ser irônica tendo em vista o relacionamento recente nas plataformas móveis: fez acordo com Microsoft, Adobe e Macromedia para garantir a conversão dos principais aplicativos profissionais do Mac OS clássico para o Mac OS X.

A estratégia funcionou, e a qualidade das ferramentas de desenvolvimento disponíveis ajudaram a convencer os desenvolvedores menores e independentes a embarcar também, mas uma lacuna nos planos acabou levando a própria Apple a se envolver nos aplicativos "de usuário final", como as suítes iLife e iWork - o que talvez tenha gerado a experiência que ajudou a empurrar a empresa na direção de criar o iPhone.

No próximo capítulo

Na primeira parte desta série vimos o ambiente e a cadeia de decisões que conduziram à opção por renovar o Mac OS a partir do NeXTSTEP/OPENSTEP, e agora vimos o que ocorreu durante seu desenvolvimento. O próximo post, nesta terça, será o capítulo final, contando sobre o lançamento do Mac OS X em 2000, incluindo as dificuldades iniciais e a maneira como foram corrigidas com uma segunda versão poucos meses depois.

 

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